terça-feira, 10 de dezembro de 2013



Ideologia, eu quero uma para pensar





 G.K. Chesterton, autor inglês da primeira metade do século passado, se não era dotado de um rigor filosófico notável, ao menos compensava pela rara perspicácia e brilhante estilo de seus aforismos certeiros. Deixou ele escrito o seguinte: “Se existe algo pior que o moderno enfraquecimento da verdadeira moral, será sem dúvida o moderno fortalecimento de uma moral menor”. Subjaz a esse trecho a ideia de que homem algum na história jamais deixou de se submeter a um determinado código normativo de comportamento, seja este moral ou filosófico[1]. Mesmo períodos de rebeldia e contracultura não são outra coisa que a construção de padrões e nomenclaturas mais ou menos originais para as nossas velhas ideias sobre culpa, responsabilidade, etc. São apenas roupagens de que se traveste a milenar experiência humana; odres novos para vinhos velhos.


Entre essas realidades tão recorrentes em nossa vida moral temos o sentimento da culpa que constantemente nos persegue. Teria vindo do Cristianismo, da ética filosófica grega, que importa isso afinal? O fato é que jamais nos foi possível a tão sonhada libertação desse fardo que parece estar ligado à existência mesma de qualquer possibilidade de atuação livre. Isso é, se alguém porventura é apto a responder por determinado ato (o que significa simplesmente ter responsabilidade), certamente tal ato lhe pertencia, foi escolhido, deliberadamente praticado e tornado assim próprio daquele que o executou. Da liberdade deduz-se a culpa; assim se depreende na prática, tanto na dita ‘ciência jurídica’ quanto no mais comum incidente doméstico.


O que Chesterton, porém, parecia querer alertar mais veementemente dizia respeito ao moderno surgimento de ‘morais’ menores, ou seja, de ideologias[2] que, incapazes de eliminar da natureza humana os fenômenos psicológicos e emocionais que nos revelam o significado moral de cada situação, ocupam-se em interpretá-los como meros construtos sociais, arbitrários e, não raramente, prejudiciais. Aos qualificativos morais ‘justo e injusto’, ‘bem e mal’ normalmente reservados à conduta humana, dão-se nomes mais polidos como ‘convenientes e inconvenientes’, ‘segregadores e agregadores’ e até ‘higiênicos e anti-higiênicos’. O foco agora já não é a qualidade intrínseca, ou seja, inseparável, de que tal ou qual ato se constitui intimamente, mas seus efeitos práticos e demais repercussões exteriores.


As chamadas ideologias, assim como no slogan daquele seriado de ficção científica, estão entre nós. Aparecem tímida ou ostensivamente, tanto no meio de discussões travadas em redes sociais como na mais desinteressada das salas de aula, e acabam por deixar sua marca: chavões e palavras gatilho, suscitadas quase que insuspeitadamente. Subitamente, elas se desenvolvem em rótulos, troca de acusações e exaltada indignação desde a qual, para o insulto verbal, não vai nem um passo.


Qualquer que seja o caso, a reação ideológica irá mover-se dentro da esfera “da ética e dos valores” e proporcionará ao seu adepto uma sensação de imunidade e relativa leveza de consciência acrescida a um bode expiatório conveniente e devidamente desumanizado; mais ainda, abstraído e diluído em coletivos genéricos como ‘a burguesia’, ‘o capital’, ‘a humanidade’, ‘a raça’, ‘o povo’, ‘a equipe esportiva’ (rival é claro) e daí em diante.


A esse amontoado informe (e cujo sentido muitas vezes é ignorado até por aquele que o introduz no assunto de debate) é que se há de objetivar o problema moral da culpa. Não ao indivíduo, que não passa de uma espécie de ‘fantoche do sistema’, privado do livre agir, ou pelo menos de um resultado historicamente relevante; mas ao “fantasma”, àquele ser abstraído, à ‘sombra’ que não pode dizer sim ou não, e que é, na realidade, incapaz de assumir qualquer responsabilidade pela simples razão de ser incapaz de praticar qualquer ação.


Dá-se aí um fenômeno psicológico de natureza centrífuga, em que o peso da responsabilidade de cada problema, seja de uma ação ou seu mero resultado, é expelido do centro de gravidade do sujeito ao evocar o novo cenário ideológico proposto (ou imposto). O adepto da ideologia já está agora acobertado pelo manto da inocência ou do anonimato, tal qual um mensageiro que furtivamente se esvai da relação inescapável com um conteúdo – vinculante também com relação a ele - daquilo transmitiu.


Entretanto ele foi, dentro de sua lógica utilitária, e antes de qualquer um, aquele que teve consciência da situação que comumente se conhece como “o sistema”, sendo ele, portanto, o único legitimado a arrogar o direito de sobressair-se e escapar de suas “regras”. Dessa maneira, ainda que preso ao mesmo terreno que inviabiliza uma opinião independente, (já que ideologicamente esta é sempre e necessariamente vinculada a fatores socioeconômicos, históricos e culturais, por exemplo) o adepto ou propositor ideológico, paradoxalmente, escapa intacto às consequências teóricas inapeláveis de suas premissas.


Das cotas raciais ao ambientalismo radical; da análise social mais rasa, até opiniões sociológicas ‘aprofundadas’ sobre um novo viral da internet, tudo passará pela filtragem da moderna moral e desembocará no uso de lugares-comuns como “opressor e oprimido” até finalmente estacar num resultado tão aceso quanto inócuo. Assim são os debates ideológicos, fadados todos à polaridade, à inépcia de diálogo mais absoluta (se por milagre vier a ocorrer) e ao emburrecimento sintomático de que o sentimentalismo logrou por fim disfarçar-se e tomar o lugar da velha razão.


Sentimentalismo sim, embora devesse defini-lo melhor como sendo de natureza eminentemente figadal e de maneira alguma dado a estados de espírito mais amenos como o humor e o deboche. Pode existir de fato nestas situações alguma pitada de sarcasmo, na realidade, todavia, não passa de um expediente estilístico com o fim de desmoralizar a tese, ou pessoa do interlocutor, na falta de maiores recursos argumentativos. É, no fundo, mera ironia, que até uma criança pouco experimentada no uso da linguagem pode descobrir e desenvolver, entretendo-se por sua própria conta, mas que é, bizarramente, ainda tida como de alguma sofisticação em certos contextos. [E ainda darão a esse ornamento boçal o status elevado que os ingleses conferem ao wit, a tirada humorística cheia de sagacidade].


Dentro desse contexto, é natural que o “assunto discutido da vez” e sobre o qual já paira a “sombra ideológica”, receba um foco nada desprezível. Precipuamente, por ter sido já apresentado num molde pré-fabricado e consequentemente prenhe de conteúdo potencialmente inflamável para indignações e contendas. Como um pacote de brinquedo, lê-se imediatamente que essa historinha há de ter o carinha bom e o carinha mau, mesmo que o real antagonista, aquele que vai pagar a conta, esteja ainda oculto e sequer tenha um rosto.


O assunto da vez já era tido como morto e enterrado. Ledo engano. Mais parece mostrar uma capacidade de revitalização e ‘renovação na mesmice’ próprias dos especiais de Natal ou Halloween de desenhos animados: Os limites do humor. O brinde fica por conta do matiz ideológico envolvendo a questão, com que os blogueiros intelectualódes e espremedores de espinha de plantão (parecidos com esse aqui) insistem em continuar nos entregando em seus pacotinhos recicláveis.


O suspeito de sempre é o apresentador e comediante Danilo Gentili, que desde algum tempo já vem expressando um descontentamento claro quanto aos rumos políticos brasileiros, junto à sempre sadia preocupação de que os meios intelectuais e midiáticos (os formadores de opinião) vêm demonstrando um espírito, digamos... pouco democrático ao lidar com o pluralismo de idéias e de concepções. Ao denunciar a existência de uma patrulha ideológica, porém transformou-se automaticamente em alvo.


Posto na mesa de biópsia dos mais diversos críticos, teve suas piadas esquadrinhadas rigorosamente, com direito a uma análise detida de seu timing e estilo, para, a seguir receber o selo de “inadequado” e ser comparado aos seus bondosos coleguinhas gringos. Nosso somelier de piadas propõe alguns exemplos de humor sofisticado e saudável que, ao leitor familiarizado com a coisa, soam como uma legítima piada mal contada: Bill Hicks, Sarah Silverman e Louis C.K. Quanto ao resto dos camaradas do mesmo ofício... “não, eles não fazem humor, eles praticam bullying”.




[Aqui temos o exemplo de dois comediantes dos citados não exatamente sensíveis ao sentimento do público ou a de qualquer de seus alvos]


Passam assim da mera crítica especializada em comédia para a análise estética mais ambiciosa, digna de vereditos definitivos.


Rir já foi considerado mal visto em períodos históricos anteriores, porém o schadenfreunde jamais foi tão escorraçado como no status atual, em que o mero uso de estereótipos, elemento básico de qualquer humor, já é mal visto como "ataque às minorias" e mesmo "discurso de ódio" pela nossa ala intelectual dominante.


É um código moral, sem dúvida nenhuma, mas como quase toda 'moderna moral', é orientada num sentido quase jurídico, reservando seu resultado ao dicotômico certo e errado, bom e mal, sem a presença de qualquer gradação ou excelência, e o que é mais grave, de tal juízo deriva ser tal ou qual atividade comédia ou não.


Longe de mim tentar iniciar uma "Teoria Pura da Comédia", mas é patente que a possibilidade de alguém se ofender ou não com determinada piada não é determinada de maneira objetiva, e dessa maneira particularmente. A mágoa é um ferimento invisível, cujo resultado não deriva só da contundência de uma pancada como também da fragilidade (muscular, óssea ou de qualquer tipo) e a maneira que este atinge aquele - seja o angulo, a força, a pressão, a precisão - a superfície.


Em suma, empresto do mundo físico esta ideia de serem tantos os fatores que se faz impossível uma verificação a priori do que é concretamente ofensivo.


Há, além disso, um problema fundamental na crítica formada contra Gentili feita pelos 'Villaças da vida' e esse é que o humor está orientado a reduzir o objeto a que se sobrepõe. É uma forma de discurso corrosiva, que deve relativizar a importância da realidade que se propõe a objetificar.


O humor é olhar de cima. Rir de algo é ridicularizá-lo, e deixar que o absurdo se intervenha a quebrar sua lógica interna. Guliiver, o viajante, é o mesmo que era antes; e por certo os habitantes de Lilipute também o eram. O choque, porém, que através do bom comediógrafo pode vir a transformar-se em cômico, está na relativização dimensional que os afeta.


Eu sei o que os defensores de Pablo Villaça – “acompanharam até aqui, meninos e meninas?” - podem vir a objetar: “ora, perfeito, senhor ‘vou-lhe-demonstrar-uma-grande-invenção-a-roda’. Mas o que Gentili fez não é nada disso. Ele chamou a mulher de vaca, não foi isso? Isso é uma ofensa direta, filho. Deal with it,”


Não, Sr.(a),  não foi bem assim. Vamos relembrar o caso e procurar o elemento relativizado aqui. A capacidade de doar leite. Enquanto uma mulher comum com uma criança em fase de amamentação geralmente consegue produzir de ... a ..., a sra.  ... produz (Sei lá o dobro?). A graça aqui deve recair sobre o exagero, que possivelmente dará lugar à alguma imagem absurda e da maneira nenhuma à lactante em decorrência de sua generosidade. A generosidade como virtude ou, como por aí se prefere entender, valor, só pode ser confrontada com a afirmação de outra.[3]


Villaça, como foi o caso de muitos outros, pode não ter achado graça nenhuma nas piadas de Gentill ou em qualquer uma de um de seus sidekicks, e isso é mais que um direito. O tom de escândalo presente num ato de repúdio, porém, nos obriga a atentar para o que ali pode haver ideológico. Em nada irá diferir de uma exortação moral de um pregador, com a diferença em que a associação à ideologia lhe retirará a capacidade de se juntar ao coro do ‘mea culpa’.


  A chave opressor/oprimido utilizada por nosso amigo resiste ainda soberana, ainda que desgastada pelo uso excessivo. Continua a principal lente pela qual a opinião pública discerne os contornos de legitimidade ou ilegitimidade de tal ou qual posição em cada questão suscetível de uma apreciação ética.


Tal estereótipo (irônico, não?) consiste, entretanto em uma mordaça eficacíssima de todo e qualquer pensamento, o qual não resistirá a infiltração gradativa e venenosa do sentimentalismo no debate intelectual. Cabe à inteligência discernir e desbaratar o cenário ideológico que o produz antes que este acabe lentamente por esterilizá-la. Caso contrário, haveremos de manter uma casta unânime de pensadores que não se permitem rir de estereótipos ainda que, curiosamente, precisem em suas análises serem continuamente amparados por eles.







[1] Aqui a distinção ente o código normativo moral e filosófico não aparece sem um sentido. Distingo entre a ética denominada eudaimonica, dita de primeira pessoa e cujo objeto é o mais perfeito bem, a felicidade, daquela ética posterior, mais próxima do terreno jurídico e que geralmente se resume na imposição ou abstenção a determinada prática, sem qualquer nível de gradação moral entre o certo e o errado. Seria correto, nessa base, falar ética judaico-cristã e filosofia pacifista ou filosofia ambientalista

[2] Concebo ideologia aqui em uma abordagem crítica, como sistema de pensamento 'fechado' e onicompreensivo, baseado na abstração isolada de determinados aspectos da realidade humana ou do ser humano individualmente. O exemplo clássico é a filosofia marxista que erige a origem social e a classe socio-ecônomica de um indivíduo o eixo determinante de sua gnosiologia e ética. Com efeito, a noção adotada se aproxima do termo "heresia moderna" utilizada por G.K. Chesterton e comunga com esta da característica 'circular', ou seja,  limitação e da forte coerência lógica interna daquela.

[3] Daí que Chesterton dissesse de Nietzche, o Niilista, que jamais pudera ele rir-se, apesar de poder sim zombar, já que ele era o demolidor de toda moral. Ora, como uma conduta não pode jamais ser valorada em si mesma sem a comparação com qualquer outra, toda a valorização ou desvalorização não faria qualquer sentido, assim como toda a ridicularização e, consequentemente, toda comédia de costumes.

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